SoundBeam na Deficiência Mental Profunda: potencial educativo e interactivo.

I. INTRODUÇÃO
Vou-vos falar da minha experiência na utilização do Soundbeam no trabalho com pessoas com deficiência mental profunda. Trabalhar com Soundbeam é uma forma de fazer música sem a longa aprendizagem e outras exigências motoras e cognitivas que são necessárias para poder tocar um instrumento musical convencional. Através desta nova tecnologia o fosso existente entre a imaginação musical e a realização musical desaparece, ou seja “eu gosto de música, mas não sei fazer música”.
As minhas actividades com o Soundbeam começaram em Fevereiro 2003 quando a CNOTINFOR, uma empresa de informática de Coimbra, emprestou ao CAO de S.Silvestre um kit de Soundbeam, dando-nos assim a oportunidade de avaliar os efeitos desta tecnologia na deficiência mental profunda.
Numa primeira fase deste projecto fez-se um estudo com seis utentes, todos com deficiência mental profunda mas com problemáticas diversas, tais como autismo, multideficiência e grave instabilidade comportamental. Mas, como é comum na deficiência mental profunda, todos eles com grandes limitações ao nível de motivação, tempo de atenção e comunicação.
Para poder avaliar a receptividade destes jovens ao Soundbeam fizemos durante um mês 30 sessões individuais, das quais se fizeram registos escritos, fotográficos e filmados. Da análise dos dados obtidos, resultou um artigo em que foi demonstrado que num prazo relativamente curto estes jovens conseguiram funcionar com o ambiente Soundbeam, revelando claramente ganhos em capacidades de iniciativa, interacção, imitação e tempo de atenção. Foi o trampolim que precisávamos para implementar o Soundbeam nas actividades do CAO, alargando durante os anos seguintes o número dos seus utilizadores e formas de utilização.

II. COMO FUNCIONA O SOUNDBEAM?
Traduzido para o português, “Beam” quer dizer cauda de um cometa. A palavra “Sound” indica que esta cauda não tem partículas brilhantes mas sons e notas musicais.
Através de um sensor, a aparelhagem Soundbeam produz um raio invisível de ultra-sons. Qualquer acção do utilizador no espaço abrangido por este raio é interpretada por um aparelho MIDI que traduz as interferências feitos pelos movimentos do utilizador em sons ou música.

Sendo assim, qualquer movimento feito pelo utilizador, desde o abanar a cabeça até ao mexer os dedos dos pés, o Soundbeam traduz em som. O utilizador responde a esta interpretação musical, adaptando os seus movimentos ao som ouvido, estabelecendo assim uma interacção com o instrumento. Não existem formas correctas ou incorrectas de tocar o Soundbeam, qualquer movimento serve para obter uma resposta positiva e este aspecto consideramos extremamente importante para o trabalho com pessoas com deficiência mental profunda.

III. CONTACTAR COM O SOUNDBEAM
Antes de falar sobre os aspectos pedagógicos, queria vos falar de imaginação, porque é sobretudo de imaginação que se trata quando utilizamos a tecnologia Soundbeam que nos convida a utilizar a nossas próprias capacidades criativas. Não existem “receitas” para a intervenção nem há actuações pré-definidas. Há apenas a vontade de contribuir para o sucesso, o prazer e a dignificação da população com deficiência mental profunda e a convicção que a organização de ambientes adaptados e estimulantes proporcionam oportunidades de aprendizagem e de expressão criativa.

Por pensar que a imaginação é uma ferramenta fundamental no nosso trabalho, convido-vos a pôr a vossa imaginação a funcionar:

Mesmo se já contactaram com o Soundbeam, imaginem que o desconhecem e que, sem vocês saberem, está perto de vós um sensor que reage aos vossos movimentos.
Qualquer um dos vossos movimentos pode provocar um som, seja um movimento largo como mudar de posição, ou um movimento quase imperceptível como um piscar de olhos.

- Imaginem-se, por exemplo, que vocês estavam aí sentados e ao cruzar a perna ou pegar na pasta, vocês ouviam o som de uma orquestra sinfónica ou do cantar de pássaros.
Qual seria a vossa reacção?
Se calhar, alguns perdiam-se num riso nervoso, outros dariam um salto e fugiam logo daqui, outros ficariam muito quietos e nem se mexiam mais. Claro que cada um à sua maneira, ia conseguir ultrapassar este primeiro impacto de susto ou de surpresa, alguns mais depressa, outros precisando de mais tempo.

E depois? Ao certo ficariam curiosos e na vossa cabeça começariam a surgir interrogações:
-”Será que, se me mexer novamente, vou ouvir outra vez aquele som?”
-”Será que ao sentar-me na cadeira ao lado o som desaparece?”
-”Será que ao mexer-me mais depressa ou mais devagar o som vai obedecer a esta mudança de ritmo?”

Para encontrar respostas a estas questões, vocês iriam explorar esta situação. Aqueles que se começaram logo a rir, de certeza virar-se-iam para um amigo dizendo: “Olha o que descobri agora, queres ouvir?” Aqueles que fugiram iam se aproximando pouco a pouco para descobrir onde há som e onde não há. Aqueles que ficaram muito quietinhos iriam observar como é que reage o vizinho de lado para fazer depois igual.

Queriam saber mais, por curiosidade mas também porque acharam muita piada a nova experiência. Apesar de sentir no início o receio do desconhecido, todos queriam explorar este novo fenómeno, saber como criar os efeitos musicais, brincar com os sons e envolver os outros neste jogo. Iam aperceber-se que havia sons que davam para dançar e outras para marcar um ritmo ou criar um diálogo musical. Iam descobrir ainda que, afinal sabiam tocar diversos instrumentos musicais e sentir-se iam então com imensas capacidades.

E ao imaginar esta situação vocês imaginaram exactamente a situação por qual passam os nossos alunos quando contactam com o Soundbeam.

Os sons que os seus movimentos provocam podem ser programados > podemos fazer ouvir um som simples de um só instrumento ou o som complexo de uma orquestra, pode ser a imitação de um som existente como a chuva, um telefone, ou uma composição fantástica como o de uma atmosfera cristalina ou de uma casa assombrada.
Estes mesmos sons podem aparecer mais rápidos ou mais lentos, mais agudos ou mais graves, em várias escalas, com eco ou não, num feixe mais ou menos comprido…as possibilidades são imensas, o que significa que a sua adaptabilidade ás varias necessidades e capacidades é muito grande.

IV. A PRÁTICA
Quando introduzimos o Soundbeam nas actividades com o jovem, o primeiro objectivo é proporcionar um ambiente motivador a este aluno, uma situação que dá prazer e por isso convida à descoberta e a exploração.
Para uns isso pode significar estar confortavelmente sentado e fazer os movimentos preferidos como algum gesto estereotipado, outros preferem andar pela sala, ou estar deitados num colchão. Cabe ao técnico de orientar o sensor para captar estes movimentos e programar um som que agrada. Estes dados são todos registados e assim o técnico pode analisar mais tarde reacções e delinear objectivos. Vamos poder observar que o jovem pouco a pouco, passa do movimento involuntário ou repetitivo para um movimento com a intenção de provocar um determinado efeito. Esta passagem da indiferença para o interesse e do involuntário para o intencional são os alicerces para um trabalho futuro. O caminho que cada um segue depois, difere de jovem para jovem. Enquanto uns preferem fazer as primeiras experiências sozinhos, gozando a independência e o controle da situação, outros procuram a proximidade do adulto, para partilhar a alegria ou sentirem-se um pouco mais seguros nesta nova situação. Mas com parceiro ou sem parceiro, a interacção estabelece-se. O técnico vai, pouco a pouco, em função das reacções observadas, introduzir novos desafios no ambiente musical já conhecido. Pode oferecer um arco para variar um movimento, pode introduzir mais um sensor, pode colocar o sensor um bocadinho mais alto ou mais baixo, pode fazer um gesto novo e tentar que o jovem o imita. Passo a passo, cada um dos jovens vai construir o seu repertório pessoal, aumentando o leque de respostas e fazendo novas conquistas.

Uso do SoundBeam

O filme que segue mostra como se pode desenrolar uma sessão de Soundbeam. O aluno em questão fez parte daquele primeiro projecto há quatro anos atrás. Quando contactou com o Soundbeam pela primeira vez, a sua reacção foi a de total rejeição, saindo da sala. Depois foi fazendo explorações, espreitando para dentro dos sensores e abanando as mãos em frente. Durante muito tempo só aceitava sons melódicos, para fazer vocalizações como meio de interacção. Hoje gosta tanto sons melódicos como os de percussão, varia de interacções e tem momentos muito interessantes de improvisação musical em combinação com expressão musical.

Quando trabalhamos com Soundbeam, estimulamos as capacidades todas:
Antecipando sons e movimentos na trajectória da sala de referência para a sala do Soundbeam, utilizamos capacidades de memória e de imaginação.
Comparar sons mais agudos e mais graves (a voz do pai e da mãe) ou escutando os efeitos de movimentar-se ou estar parado, o som e o silêncio, desenvolvemos capacidades auditivas. Procurando o sítio onde estava aquele pássaro a cantar, estimulamos capacidades de orientação espacial. Quando nos preparamos para a actividade, a seguir fazemos uma interacção a dois, para no fim fazer uma improvisação sozinho, desenvolvemos capacidades de orientação no tempo: como primeiro, depois e no fim. Ao fazer um som com a cabeça e depois com o pé, ficamos mais conscientes do nosso corpo, e á claro que as actividades melhorem as eficiências motoras. Tudo isso é feito com muito motivação, atenção, num ambiente interactivo e comunicativo onde há espaço para escolhas e iniciativas.

Anna Petronella Venhuizen > Educadora de Infância no CAO de S. Silvestre de APPACDM

Vídeo para ligação por modem (Apenas 937Kb)

Vídeo para ligação por banda larga (7,5 Mb)




Colocado no dia: 27 Julho 2007 às 11:13

Tags: , ,


Comentários


Um Comentário em “SoundBeam na Deficiência Mental Profunda: potencial educativo e interactivo.”


  1. gil diz:

    Ola, gostei muito de ler este texto de partilha de conhecimentos e experiência. gostaria de fazer uma pergunta…. instalar soundbeam é fácil, e ler seus resultados? cumprimentos e obrigado


Deixe um Comentário

É necessário estar registado para escrever um comentário.

Caso ainda não se tenha registado poderá registar-se em: http://www.cnotinfor.pt/registo


Subscrever via RSS





  • Comunidade Imagina



  • Criar conta gratuitamente
    Esqueceu a sua password?
    • Print
    • email
    • Twitter
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • del.icio.us
    • LinkedIn
    • RSS



    Áreas

    acessibilidade alfabetização aprendizagem aprendizagem do inglês artigos aventuras Aventuras 2 cidadania ciências comunicar com símbolos comunicação comunicação alternativa educação especial formação geografia história histórias inclusão inVento investigação Já Está já está 2 Laboratórios Virtuais leitura linguagem língua portuguesa línguas estrangeiras mapa de ideias matemática música necessidades especiais NXT pesquisa poesia pt-BR pt-PT quadros interativos robot roamer Robótica sopa decimal soundbeam symbolinc symbol lab símbolos tecnologia assistiva